Quando se fala em compostos derivados do cânhamo, dois nomes costumam surgir: CBD e THC. Ambos fazem parte da mesma família química, mas os seus efeitos, utilizações e regulamentação legal são muito diferentes. O que os torna tão diferentes? Entender como eles agem no corpo, quais aplicações são atribuídas a eles e o que as evidências científicas dizem pode ajudá-lo a tomar decisões mais informadas e confiantes. E para fazer isso, a primeira coisa é observar como eles se relacionam com o seu próprio sistema biológico.
Como atuam no organismo: mecanismos de ação
Antes de falar sobre efeitos ou usos, é essencial entender o que acontece em seu corpo quando eles entram em contato com CBD ou THC. Ambos atuam através de um sistema interno chamado endocanabinóide, que funciona como uma rede reguladora. Ou seja, como um conjunto de “interruptores” que ajudam a manter o equilíbrio entre funções tão diversas como o humor, o apetite ou o sono. Vamos ver qual o papel de cada um.
O Sistema Endocanabinoide e seu Papel Regulador
Este sistema está presente no seu corpo desde o nascimento e cumpre funções fundamentais para o seu bem-estar geral. É composto por recetores (chamados CB1 e CB2), que atuam como sensores em diferentes partes do corpo. Os CB1 são encontrados principalmente no cérebro, enquanto os CB2 são encontrados em órgãos periféricos, no sistema imunológico e em tecidos como a pele.
Canabinóides como THC e CBD ligam-se a estes recetores de maneiras diferentes, e é aí que começa a grande diferença. Enquanto um os ativa diretamente, o outro os modula suavemente. Essa interação dá o tom de seus efeitos.
THC e seu efeito direto sobre os recetores cerebrais
O THC (tetrahidrocanabinol) liga-se diretamente aos recetores CB1 localizados no cérebro. Ao fazê-lo, ativa-os como se pressionasse botões que modificam temporariamente a comunicação entre os neurónios. Isso pode se traduzir em mudanças na perceção do tempo, sensações intensas ou alterações na memória imediata.
De acordo com pesquisas como a de Stella (2023), essa ativação lhe dá algum potencial benéfico, mas também torna seus efeitos mais fortes e é por isso que precisa de maior controle médico e especializado quando usado para esses fins. Em jovens ou pessoas com uma certa predisposição, pode gerar efeitos colaterais cognitivos ou emocionais que devem ser conhecidos com antecedência.
CDB e sua influência indireta
O canabidiol (CBD), por outro lado, não ativa diretamente esses recetores. O que faz é algo mais subtil: modula-os. É o que os especialistas chamam de modulador alostérico negativo. Em palavras simples, altera ligeiramente a forma do recetor para que a sua resposta a outras substâncias seja mais equilibrada. Além disso, o CBD interage com outros recetores como o TRPV1 (relacionado à perceção da dor e temperatura) ou o 5-HT1A (ligado à regulação emocional e serotonina). Essa capacidade de influenciar vários pontos ao mesmo tempo pode explicar por que seu papel no alívio da dor, ansiedade ou mesmo proteção celular está sendo estudado (Blebea et al., 2024).
Efeitos no corpo: o que as evidências mostram
Com os mecanismos claros, podemos agora falar sobre os seus efeitos. As diferenças entre CBD e THC não são vistas apenas em como eles funcionam, mas também nas mudanças que produzem em um nível físico, emocional e cognitivo. É aqui que a ciência oferece orientações valiosas.
Alterações cognitivas e emocionais associadas ao THC
Estudos em humanos e animais mostraram que o THC altera a atividade de áreas cerebrais como o hipocampo e o córtex pré-frontal (Stella, 2023). Essas regiões estão envolvidas na memória, julgamento e controle emocional. Como resultado, o THC pode levar a dificuldades temporárias na memória de trabalho, diminuição da clareza ao tomar decisões, ou até mesmo variações de humor.
Embora algumas pessoas o procurem precisamente por estes efeitos, também podem representar riscos, especialmente quando a quantidade ou o contexto em que é utilizado é desconhecido. Essa é uma das razões pelas quais a sua regulamentação é mais rigorosa.
Efeitos regulatórios do CBD no humor, dor e sono
O CBD tem sido estudado de uma perspetiva diferente. Como não gera efeitos psicoativos, a sua capacidade de modular estados como a ansiedade ou o stress sem interferir com a lucidez mental tem sido explorada (Blessing et al., 2015). Além disso, a investigação associa-o a potenciais propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes que podem ser úteis para a gestão do desconforto físico (Atalay et al., 2019).
Em termos de sono, estudos como o de Rojas-Valverde (2021) observaram que o CBD poderia promover o descanso sem induzir sonolência artificial. Em outras palavras, não se trataria de dormir mais, mas de dormir melhor, naturalmente e sem afetar sua consciência. Este conjunto de possíveis efeitos tornou-a numa opção atrativa para quem procura acompanhar o seu bem-estar diário.
Segurança, tolerância e possíveis riscos
Falar sobre canabinóides não implica apenas conhecer os seus benefícios, mas também os seus possíveis efeitos adversos. Compreender quais são os seus níveis de tolerância e segurança ajuda-o a avaliar melhor se são adequados para si.
Perfil de Segurança do Canabidiol (CBD)
Uma das razões pelas quais o CBD ganhou popularidade é que geralmente é seguro. Nos poucos casos em que existem reações adversas, estas são geralmente transitórias: sensação de cansaço, sonolência ligeira ou desconforto digestivo (Blebea et al., 2024).
Também é relevante que não tenham sido identificados riscos de dependência ou efeitos negativos na memória. No entanto, como qualquer substância ativa, pode interferir com certos medicamentos ou condições de saúde. Portanto, se você planeja incorporar o CBD em sua rotina, é aconselhável fazê-lo com supervisão profissional, especialmente se você já está em tratamento ou tem uma condição médica.
Riscos associados ao uso de tetrahidrocanabinol (THC)
O caso do THC requer mais atenção. Quando usado repetidamente, você pode desenvolver tolerância (ou seja, precisar de quantidades cada vez maiores para sentir seus efeitos) e, em alguns casos, dependência psicológica. Pesquisas como a de Stella (2023) também alertam sobre seu possível impacto no desenvolvimento cerebral em casos específicos. Por todas estas razões, a sua aplicação legal restringe-se a contextos médicos muito específicos e sempre sob avaliação especializada.
Origem vegetal e diferenças na planta da cannabis
Agora que já sabe como funcionam e que efeitos têm, vale a pena olhar para o seu ponto de partida: a própria planta. Você sabia que tanto o CBD quanto o THC vêm da mesma molécula inicial? A sua história começa no coração do cânhamo.
CBGA e o papel das enzimas na síntese de canabinóides
A molécula precursora chama-se ácido canabigerólico (CBGA). À medida que a planta cresce, este composto transforma-se em canabinóides diferentes, dependendo das enzimas presentes. É como se cada cepa tivesse um “manual genético” que decide se ela formará mais CBD ou mais THC (Blebea et al., 2024).
As condições de cultivo, como luz, temperatura ou tipo de solo, também influenciam esse processo. Portanto, mesmo plantas da mesma espécie podem ter perfis diferentes.
Como o perfil predominante de uma planta é definido: THC vs. THC CBD
Quando uma planta desenvolve uma maior concentração de THC, seus usos são mais limitados. Por outro lado, variedades ricas em CBD, como o cânhamo industrial, são usadas para usos mais amplos, pois não geram efeitos intoxicantes.
Esta diferença determina também a forma como estes compostos são regulamentados, comercializados e utilizados. Compreender a origem vegetal permite-lhe avaliar melhor o que está a utilizar.
Aplicações e pesquisas atuais sobre a CDB
O interesse científico no CBD expandiu-se graças à sua versatilidade e perfil de segurança. Pesquisas recentes exploraram diferentes campos possíveis de bem-estar onde este canabinoide poderia desempenhar um papel relevante. Embora muitos de seus efeitos ainda estejam sendo estudados, os resultados preliminares são promissores.
- No tratamento da dor e inflamação, vários estudos têm apontado que o CBD pode ser útil para pessoas com desconforto persistente, seja muscular ou articular (Blebea et al., 2024; Atalay et al., 2019).
- O seu papel na regulação emocional também tem sido investigado, com resultados que apontam para um potencial em termos de redução da ansiedade e promoção de um estado de maior tranquilidade mental, sem comprometer a clareza cognitiva (Blessing et al., 2015).
- Em termos de qualidade do sono, o CBD tem sido estudado para melhorar o descanso em pessoas com rotinas intensas ou dificuldade em relaxar no final do dia, mesmo no caso de atletas de alto rendimento (Rojas-Valverde, 2021).
- A nível tópico, vários estudos têm apontado potenciais benefícios nos cuidados com a pele, como a redução da irritação, inflamação e promoção de uma hidratação saudável (Atalay et al., 2019; Tijani et al., 2021; Ikarashi et al., 2021).
- É também estudado pela sua potencial ação antioxidante e pelo seu possível papel na regeneração celular, incluindo processos como a cicatrização de feridas (Parikh et al., 2024).
Embora ainda haja muito a ser descoberto, o cenário atual sugere que o CBD pode se tornar um aliado complementar para diferentes aspetos dos cuidados pessoais e da saúde cotidiana.
Quadro jurídico em Espanha: o que é permitido e o que não é
O THC é considerado uma substância controlada e só é permitido para uso terapêutico com prescrição médica, em produtos específicos aprovados pela Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos de Saúde (AEMPS). Qualquer utilização fora desse contexto pode resultar em consequências legais.
O CBD, por outro lado, é autorizado para produtos cosméticos ou tópicos e de colecionador, desde que contenham menos de 0,2% de THC.
Conclusão: Dois compostos, efeitos diferentes
Como você viu, CBD e THC são compostos que compartilham origem, mas não comportamento. A pessoa age intensamente no cérebro e requer supervisão. O outro modula mais suavemente e é explorado como uma ferramenta para o bem-estar.
Se você está pensando em usar produtos CBD, nossa recomendação é que você faça sua pesquisa, escolha opções verificadas e, se tiver dúvidas ou condições específicas, tenha a orientação de um profissional. A informação é a sua melhor aliada para decidir com confiança e segurança.
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Referências:
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